“Sou budista. Mas se sentir angústia ou raiva, serei menos budista?”

“Sou budista. Mas se sentir angústia ou raiva, serei menos budista?”

Sempre que ouço isto, penso: “Buda apresenta um caminho de libertação. Porque então, às vezes, transformamos esse caminho em fonte de ansiedade e cobrança?”

O Dharma Kadam que temos em mãos é um tesouro precioso e puro. Não há um dia sequer que eu passe sem perceber um novo ensinamento na mesma página que leio já há vinte anos. Temos um Dharma puro. Mas os praticantes – eu, você – somos, antes de tudo, pessoas. Algumas querem ser felizes, melhores. Outras, anseiam libertar-se de suas falhas e delusões. E outras desejam fazer isto para e pelos outros através de gerar a bodhichitta e alcançar a iluminação. 

Porém, antes de tudo, pessoas. Com todas as nossas falhas, delusões e contradições.

Hoje fala-se muito em narrativas. Pois bem… inadvertidamente, criamos para nós mesmos a narrativa de que, para sermos budistas, precisamos ser puros. Sem falhas. Desde o início, logo de saída. Confundimos “ter uma intenção pura” com “já sermos puros”. E alguns não suportam o que enxergam em si: as suas próprias contradições.

Mas na nossa “carteirinha de budista”, não está escrito: “condição para inscrição – estar livre das delusões”. Se tal “carteira” existisse, o que estaria lá escrito é: “condição para inscrição – querer, confiar e buscar proteção em Buda, Dharma e Sangha”.

Isto significa que quando temos raiva, buscamos refúgio. Quanto temos ansiedade, medo ou apego, buscamos refúgio. Não buscamos refúgio porque já somos puros. A nossa pureza como praticantes budistas está na intenção de buscar proteção no Guia Espiritual e nas Três Joias sempre que percebemos falhas em nós mesmos. E não porque já somos imaculados, livres de delusões e imperfeições.

Mas para buscar refúgio, precisamos reconhecer que estamos com raiva, etc. Como diz o poema: “e agora, José?”. Como ficamos?

Às vezes, lidamos com uma espécie de “tudo ou nada”. Ou somos puros, ou não somos. Ou os outros são puros, ou não são. Viver com esta contradição é difícil e, para alguns, insuportável.

Penso que precisamos aprender a nos ver com os olhos que o nosso Guia Espiritual e os Budas nos vêem. Lembremos que o próprio Buda disse: “Devo prostrar-me à lua nova, e não à lua cheia.”

Esta citação significa que, em meio a toda a nossa bagunça mental, eles enxergam o pequeno lótus do pouquinho da nossa raiva que já conseguimos abandonar. O pequeno lótus do pouquinho do nosso… apego / ansiedade / orgulho / medos / angústia… que já conseguimos abandonar.

Eles ficam tão felizes com as nossas pequenas conquistas. E nós? Sentimos alegria? Em que estamos focados?

Pessoalmente, acho libertador ver estas pequenas conquistas – nossas pequenas realizações – como flores de lótus em nosso coração. O lótus destas pequenas conquistas vive em meio à lama das nossas imperfeições. Ser budista é, antes de tudo, conseguir manter esse lótus vivo dentro de nós, e não porque já drenamos todo o lodo das nossas delusões e falhas.

Gosto muito de uma passagem do livro Budismo Moderno, onde Venerável Geshe-la diz: “Buda já está nos libertando quando revela o caminho da sabedoria que nos conduz à meta suprema da vida humana” (p. 9).

“Buda já está nos libertando”. Já está acontecendo. Conseguimos sentir isto? Você consegue sentir isto? A libertação já está acontecendo. Porque já estamos a caminho.

Mas estar a caminho não significa já ter percorrido todo o caminho. Os quilômetros que faltam não invalidam a viagem. A distância ainda não percorrida não nos transforma em não-viajantes. Estamos a caminho.

O caminho é alegre, porque é feito de esforço alegre. Se não for alegre, há algo errado. A tensão surge quando instrumentalizamos a prática. E isso acontece quando nos aferramos aos resultados. Às vezes, quando nos sentimos ansiosos, tentamos fazer alguma meditação, mas a ansiedade não passa. E o nosso apego ao resultado somente faz com que a ansiedade aumente. 

Nessas horas, precisamos relaxar. Talvez estejamos tentando fazer tudo sozinhos. Falta-nos compartilhar nossas fraquezas com os Budas. Descansar a nossa mente, “exausta por suas elaborações”, no colo do nosso Guia Espiritual. Apenas isto. E dividir com eles os nossos medos, as angústias, fracassos. Mostrar quem somos. E a completa pureza deles não fará com que fiquem escandalizados com a nossa fragilidade. Ao contrário, a sua pureza iluminada a dissolverá. E no oceano do seu acolhimento amoroso, a mente se pacifica. 

Ser budista não é ser perfeito. Ser budista é confiar nos Budas. Principalmente quando nos sentimos frágeis, incapazes. E quando não temos mais forças para fazermos tudo sozinhos, é nesse momento que a fé se abre. E percebemos que o Dharma foi feito para nós.  

Kadam Antônio

Antônio é praticante Kadampa há muitos anos, e é professor no CMK Deuachen, o precioso templo localizado em Sintra, Portugal. Além disso, é um dos responsáveis pela revisão e tradução dos livros da nova tradição Kadampa para o português, trabalho preciosíssimo e que nos permite ter acesso aos ensinamentos de Buda na nossa língua.

1 Comentário

  1. Ryath 20/05/2021 Reply

    Um budista é um ser humano, não podemos negar isso, nem exigir demais da gente.
    Nos aceitar como somos.

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